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O QUE ME MOVE AO LUGAR DE PSICANALISTA?

Uma articulação da Psicanalise com o Coaching

Desde pequena, em torno de 10 ou 12 anos, já me sentia atraída por sonhos. Eu tinha muita curiosidade para entender o porque sonhamos. Eu dizia que gostaria de ser uma especialista em sonhos, para saber interpretar, analisar e desvendar, mas nessa época, eu nem sabia que existia Psicanálise, ou Psicologia, mas o desejo de entender esse fenômeno já estava em mim. Também gostava de ouvir as pessoas contarem seus sonhos e ouvir suas histórias. Este lugar de escuta me atraía. Sempre me interessava pelas diferentes maneiras e comportamentos das pessoas, pelo jeito de agirem, de falarem, de se posicionarem, ou seja, me interessava pelas particularidades de cada um e também com o que os tornavam diferentes. Havia em mim uma tendência, uma vertente de inclinar me sobre o outro tentando entende-lo e pensando em que eu poderia ajudá-lo.

Com o passar do tempo também fazia muitas reflexões sobre mim. Buscava questionar as minhas angustias, meus sofrimentos, minhas dores… De onde vinham? E porque? Enfim, tentava resolver meus conflitos e acalmar esses sintomas pois não me agradava ficar com esse desconforto de não estar bem. Queria sempre viver melhor. Visitava minhas questões da forma mais profunda que conseguia. Mas, não tinha noção sobre nada, nenhum conhecimento das teorias psicanalíticas e nem da Psicologia.

Ao fazer vários cursos de coaching, há 20 anos atrás, mergulhei fundo em meu autoconhecimento. Neste processo tomei maior consciência das minhas forças, fraquezas, talentos, valores e as minhas características de personalidade. Descobri minha missão, o propósito que atrai uma pessoa para vida, o que contribuiu em minhas decisões posteriores na vida pessoal e profissional.

Ao tomar a decisão de atender um desejo antigo de trabalhar com a escuta iniciei a graduação em Psicologia. Mas, na verdade, ainda sentia uma inquietude, porque nas teorias psicológicas ainda faltava algo. E, foi com a Psicanálise que enfim descobri o lugar que aquela menina pequena gostava de estar, escutando a história de outras pessoas para ajudá-las de algum modo. Foi a partir do estudo da Psicanálise e da minha própria análise que senti ter encontrado o lugar da escuta.

Trazendo uma reflexão sobre a pulsão, penso que esta trajetória foi desenhada pela busca de satisfação da pulsão, haja visto que é por buscar a satisfação da pulsão que o sujeito deseja e, é por desejar que segue tentando encontrar aquilo que falta, este é o desejo que move o sujeito, e aqui estou eu.

Então, enquanto sujeito meu desejo me trouxe à Psicanálise. Mas já descobri que ser Psicanalista não é uma profissão porque analista é um lugar, parece-me também, ser um estilo de vida porque ainda não conheci um Psicanalista aposentado! Será que o desejo de um analista em seu trabalho de escutar não se esgota? Dedicar-se a conhecer a Psicanálise significa nos conectarmos com o desejo de aprender, de adquirir cada vez mais conhecimentos, alavancar novas ideias, desenvolver a criatividade e nos movimentarmos.

Trazendo essas reflexões para o percurso que me fez chegar até aqui, penso na formação em coaching. Ainda que, paradoxalmente, estar em formação na Psicanálise aumente minha clareza quanto às diferenças entre o lugar do analista e o lugar do coach.

Inspirando-me em um texto de Freud, que nos fala sobre a Terapia Analítica, no qual ele compara o tratamento hipnótico ao tratamento psicanalítico, trago aqui uma analogia entre o processo psicanalítico e o processo de coaching, explicitando a diferença entre o lugar do analista e o lugar do coach.

Trabalhei com coaching por alguns anos, e esse processo tem um objetivo bem delimitado, muito similar às propostas da TCC. Mas não é uma terapia cognitivista. O coaching é pragmático — um processo que visa alcançar resultados bem específicos, pautado na decisão consciente, no planejamento e em ações voltadas para uma meta. É eficaz, mas não trabalha dilemas existenciais, embora inevitavelmente os toque.

O analista não ajuda o paciente a alcançar um resultado específico. Ele não é diretivo nem pragmático. O analista escuta, e não se coloca como sujeito desejante durante o atendimento. Nesse sentido, os dois lugares não se encontram. O coaching está no percurso oposto. Não questiona o desejo, nem os sintomas, nem o gozo do paciente. Ao contrário do coach, o analista não está focado no discurso consciente, mas nos sinais do inconsciente que esse discurso revela.

Em análise, o paciente traz seus conteúdos, ressalta suas queixas e necessidades. E, nessa associação livre, ele apresenta algo heterogêneo, muitas vezes confuso e estranho a si mesmo. Ainda que isso faça parte dele, faz parte da história — mas não chega à memória. Faz parte dele e, ao mesmo tempo, não faz. É aí que a análise avança.

O coach tem outro lugar. Seu objetivo é ajudar a pessoa a resolver uma questão pontual, ligada a comportamentos inadequados, algo prático do dia a dia que pode estar trazendo dificuldades — como, por exemplo, má administração do tempo, comunicação ineficaz ou metas a serem atingidas. Ou seja, no coaching, a especificação do objetivo deve ser mensurável, alcançável, relevante e temporal, com formulação clara e objetiva.

O coach não escuta aspectos inconscientes, não interpreta, não interpela essas questões. E, ao perceber entraves, encaminha o cliente a um psicólogo.

Além disso, o processo de coaching possui etapas bem definidas, com tarefas práticas: identificar, analisar e compreender problemas; avaliar os recursos pessoais disponíveis a serem ampliados para superá-los; definir o potencial de mudança; e utilizar ações específicas que possam contribuir para a transformação referente à questão apresentada.

Nesse sentido, entre o coaching e a psicanálise não há similaridades ou aproximações — nem mesmo quanto à escuta. Um foca nos conflitos imaginários e conscientes; o outro, em uma escuta que flutua entre o discurso consciente e os sinais no discurso em que o inconsciente se revela (ou se esconde).

O trabalho do psicanalista tem outra relação com o tempo e com os resultados: o tempo é do paciente. Diferentemente disso, o coaching, assim como a hipnose, utiliza a sugestão. O coach sugere opções de mudança. A hipnose buscava eliminar sintomas por meio da sugestão, ainda que deixasse inalterados os processos que levaram à formação desses sintomas. O tratamento analítico, por outro lado, atua de forma retrospectiva, indo em direção às raízes onde estão os conflitos que originaram os sintomas. Ele não utiliza a sugestão para modificar o resultado desses conflitos.

Um tratamento analítico exige, tanto do profissional quanto do paciente, um trabalho profundo em relação às resistências internas. A transferência — vínculo afetivo entre paciente e psicanalista —, ao mesmo tempo em que favorece o desenrolar do processo, também contribui para a resistência. Trata-se de um relacionamento ambivalente, uma via de mão dupla.

Talvez um dos maiores desafios do psicanalista seja fazer da associação livre a dinâmica das sessões, incentivando o paciente a seguir a única regra fundamental da análise: trazer não apenas o que pode dizer intencionalmente e com facilidade — o que muitas vezes alivia como uma confissão —, mas também verbalizar livremente tudo o que lhe vier à mente, sem qualquer tipo de censura ou inibição. Mesmo que pareça absurdo, trivial, sem importância ou desagradável de se dizer.

Logo, sinto-me contemplada por, um dia, ter percebido que não me sentia realizada e estava afastada de onde minha alma queria estar. Sinto-me feliz por uma luz ter se acendido, e por eu ter decidido realizar esse antigo sonho — que estava tão profundo dentro de mim que eu nem sabia que existia: o trabalho de escuta das questões do inconsciente — a Psicanálise.

Há um dizer que precisa ser escutado… EU SOU ESCUTA.

1 Freud, Sigmund. Conferencia Introdutória sobre a psicanalise (1916 – 1917) parte III – Conferência XXVIII –
Terapia Analítica. Neste texto, ele fala sobre a os efeitos da sugestão como método de tratamento, comparando-o com o tratamento hipnótico, posto neste momento como tratamento psicanalítico.

Josêmia Maria Deprá

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